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TEMAS MÉDICOS

Você não está quebrada, você só não é convencional: carta para mulheres com TDA

12 Jan, 2026

     Querida… Você é tudo, menos convencional. Eu tenho certeza que você é extremamente criativa, inteligente, sonhadora, amorosa e empática com as pessoas ao seu redor. Mas, eu também tenho certeza de que, você mesma duvida disso quase todos os dias.

    Você provavelmente passa a maior parte do seu tempo, e passou a maior parte da sua vida, duvidando, e duvidando muito, do seu próprio potencial.

    Você sempre se sentiu como um peixe fora d' água, principalmente na hora de se comparar com outras mulheres da mesma idade que você. Desde criança, você provavelmente se sente completamente fora do padrão, e que talvez você também sinta que você não é o suficiente... Já era assim desde a infância, só que tudo desandou ainda mais a partir da adolescência. E na vida adulta então, nem se fala… Acertei? 

    É que, como a gente tá careca de saber, diferente dos homens, a sociedade espera que nós, mulheres, que sejamos: atentas, calmas e delicadas. Só que, você, minha amiga com TDA… Sinto em lhe informar, você não é e nem nunca vai ter essas características. A sua mente é muito criativa e ambiciosa pra te deixar ser “delicada e calma”, mas não porque você não é feminina o suficiente, é que você, na verdade, é muito mais do que isso. 

    Ao contrário dos homens, mulheres com TDA raramente são diagnosticadas de forma correta e ainda durante a infância - o que acontece muito com as mulheres é o subdiagnóstico (ou seja, a falta de diagnóstico ou o diagnóstico tardio). Isso acontece com o sexo feminino porque, mulheres com TDA, podem ser extremamente funcionais e passarem a vida sofrendo em silêncio. E aí, que o transtorno passa despercebido pelos pais, professores, e até pelos olhos clínicos mais atentos. Isso acontece principalmente porque, entre as meninas predomina-se o subtipo desatento, enquanto nos meninos, predomina-se o subtipo hiperativo.

   Ou seja, as meninas TDAs quando são crianças, literalmente, costumam chamar menos ou nenhuma atenção, diferente dos meninos que têm a neurodivergência. 

   Entre as crianças meninas, predomina-se o tipo sem hiperatividade, ao contrário do sexo masculino. Sabemos que para cada três homens com diagnóstico de TDAH, existe só uma mulher com o mesmo diagnóstico. Aí que fica a dúvida: será que o transtorno é realmente mais comum no sexo masculino, ou é esse tal do subdiagnóstico

    Enfim, a verdade é que mais uma vez, o sexo feminino acaba ficando pra trás na corrida da visibilidade que é coordenada pela sociedade. Ó, conte-me outra novidade! Mas, o preço a ser pago quando o diagnóstico de TDA não é feito precocemente, é bastante alto para uma mulher. 

     Como eu já disse, das mulheres espera-se que sejam atentas, calmas e dedicadas, que sejam organizadas e seus gestos, delicados – atributos “indispensáveis” que a sociedade patriarcal nos coloca, automaticamente, após se nascermos com uma vagina. E, se não formos assim, tão caprichosas e prendadas, as mulheres sofrem com o peso da crítica e do julgamento externo, é claro. 

    É difícil manter o foco e terminar as tarefas, principalmente quando as responsabilidades da vida adulta só aumentam. Sim minha amiga, mundo vai julgar você pela sua capacidade de organização. Por isso, você, mulher com TDA, irá enfrentar barreiras muito específicas e que os homens raramente precisam encarar. Mas não se esqueça, você tem seus outros superpoderes.

parte 1: infância, a menina com TDA

    Voltando à sua infância, minha querida amiga com TDA… Se você era uma menina TDA do subtipo desatento, você era aquela garotinha introspectiva, tímida, que provavelmente tinha dificuldade de fazer amizades e que passava despercebida (até demais) pelos professores e pelos familiares. 

    Maaaas, se você foi uma das poucas meninas do subtipo TDA hiperativo, aí a sua história é diferente: você provavelmente era aquela criança conhecida como travessa, malcriada ou até desobediente, e aí, no seu caso, com certeza você não passava despercebida, e nem um pouco

   
    1. A menina sonhadora (subtipo desatento): 

  Na infância, a menina com TDA do subtipo desatento, era aquela que ficava sonhando acordada,  e que quase não era notada na sala de aula. Como o tipo desatento é o mais comum entre as mulheres, se você era uma dessas menininhas, sim, você sofreu em silêncio com a sua desorganização. O resultado? Os índices de ansiedade e depressão nessas mulheres são muito mais altos quando chegam na fase adulta (então se cuida e procura ajuda se achar necessário meu bem!)
    Aí, no seu caso, na escola, você vivia se sentindo totalmente sufocada pelas suas tarefas. Mesmo quando você se esforçava bravamente para ouvir o(a) professor(a), a sua mente era meio escorregadia e rapidamente te levava, sem avisar, para terras distantes, sonhos, lembranças, diálogos…. 

     E talvez, por você ter sido tão quieta e distraída, muita gente pensava que você era, ou que você é, menos inteligente do que você realmente é. Mal sabem essas pessoas que essa sua mente flutuante é uma fonte de criatividade infinita, que é capaz de produzir imagens e sons sem parar!

          ---- "Conforme eu crescia e as responsabilidades aumentavam, ficava impossível dar conta de tudo. Eu sentia muita vergonha e uma sensação de incapacidade que tentava esconder de todo mundo."   - relato anônimo de paciente com TDA.

 

    2. A menina tagarela e hiperativa:

  Entretanto… Nem todas as meninas com TDA foram sonhadoras e muito menos silenciosas durante a infância. Existem uma minoria das meninas que cresceram com características de uma criança tagarela e hiperativa. Ou seja, as garotinhas falantes ficam no meio do caminho: vocês são uma mistura de distração com uma energia social irresistível!

   Na escola, vocês tagarelas, eram as rainhas dos bilhetinhos, das fofocas e frequentemente, lideravam o grupo das amigas —  e qualquer coisa parecia mais interessante do que a aula. Você até tentava prestar atenção, mas seus sentidos ultrassensíveis não conseguiam (e talvez ainda não consigam), filtrar qualquer outro ruído da rua lá fora ou o de uma conversa do seu lado.

  Embora você tenha sido simpática e talvez uma líder nata, acredito que você também tenha sofrido na sua infância e na sua adolescência. É muito provável que você se sentia (e pode ser que ainda se sinta) permanentemente sobrecarregada — talvez o seu pior pesadelo envolva: tarefas acumuladas, prazos que se aproximam e que aumentam que nem uma bola de neve , e parece que em algum momento tudo isso vai te atropelar e te deixar enterrada debaixo dessa neve... E além disso, o seu esforço que também é gasto para empurrar essa bola montanha acima também te gera uma sensação de esgotamento contínuo. E o pior é que talvez você nunca tenha percebido isso pela simples razão de que: nós mulheres simplesmente nos acostumamos a estarmos sempre cansadas. Mas tá na hora de mudar isso minhas amigas! Vamos parar de normalizar todo esse cansaço.


 

parte 2: mulheres TDAs podem ser muitas coisas, menos convencionais. 

    O desenvolvimento de uma mulher com TDA — seja ela desatenta, hiperativa ou mista — é marcado por desafios únicos. À pressão de crescer em uma cultura que exige papéis rígidos das mulheres, soma-se o peso de ter um cérebro que funciona de um jeito diferente.

    A presença de mulheres com TDA, é marcante no mundo artístico, no show bussiness e, certamente, são uma boa parte mulheres que desafiam as regras e rompem com tabus, que são pioneiras no campo da política, do trabalho, das artes e das ciências. 

   Emma Watson, a atriz de Harry Potter e ativista da ONU, foi diagnosticada com TDA ainda quando era criança, e já disse publicamente que faz uso de medicação desde então para ajudar no foco. Greta Gerwig, a diretora de Barbie e Lady Bird revelou em entrevistas que ela era uma criança com uma "energia infinita" e que depois do diagnóstico de TDAH, ela entendeu o porquê da sua mente inquieta que nunca parou de criar. Paris Hilton, a empresária tornou-se recentemente, uma das maiores vozes sobre o TDAH adulto em mulheres, chamando-o de seu "superpoder" (o que eu, particularmente, achei bem fofo). Ela diz que a sua neurodivergência é o seu superpoder para a sua criatividade aguçada e pra inovação nos seus negócios. Mel Robbins, a famosa autora e palestrante motivacional, descobriu o TDAH aos 47 anos - hoje, ela ensina técnicas de produtividade específicas para cérebros neurodivergentes.

     E gente, fiquem atentas! É muito comum mulheres só descobrirem o TDAH depois dos 30 ou 40 anos de idade. Mas essas mulheres poderosas que você acabou de ler, são ótimos exemplos de que uma "mente flutuante" como a delas, é a mesma mente que produz roteiros de cinema, músicas e impérios de negócios.

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parte 3: a síndrome da impostora que adoece

    Não é preciso que a gente pense muito, pra entender o porquê as mulheres portadoras de TDA, sofram tanto julgamentos externos – embora, talvez você se sinta como um verdadeiro motor de energia, talvez você tenha passado quase toda a sua vida com a sua autoestima baixa. 

    Eu arrisco dizer inclusive, que a Síndrome da Impostora é muito mais comum em mulheres com TDA do que mulheres sem esse transtorno.

   Afinal, desde cedo, você ouviu que você era desorganizada, desleixada e que você não tinha o que era preciso para ser uma boa aluna ou uma boa profissional. Você ouvia um caminhão de críticas por dia, críticas inclusive, que os meninos raramente ouviam, porque "os meninos são assim mesmo".

      Mas, de nós meninas e mulheres, sempre vão esperar que sejamos passivas. “Garotinha educada é aquela que fica no cantinho quietinha e não incomoda ninguém...” 

     Então minha amiga… saiba que as suas melhores qualidades – a sua criatividade, a sua energia e a sua iniciativa pras coisas — provavelmente não foram estimuladas e nem trabalhadas ao longo da sua vida. Ou pior, elas foram abafadas a sua vida toda. Porque, pra que essas habilidades tivessem sido estimuladas durante a sua infância, a sua família precisaria ter entendido desde cedo o que é o TDA e como você era uma criança especial e diferente. Mas, quase todas as famílias que tinham crianças nos anos 80, 90, e 2000, eu tenho certeza que essas famílias não tiveram acesso a esse tipo de conhecimento naquela época.  

    Se você tivesse tido o suporte necessário, talvez o seu jeito de ser teria sido entendido mais cedo, e talvez os seus talentos não teriam sido massacrados pelas exigências de um comportamento "impecável", que simplesmente não combina com você.

    Mas, na grande maioria dos casos, esse entendimento da neuro diferença não é entendido e o triste resultado é que, quase todas as mulheres com TDA chegam à idade adulta se culpando por cada passo, por cada escolha ou por cada pensamento seu que saia do padrão.

    É claro que os esquecimentos comuns do TDA  podem atrapalhar a vida do dia a dia, especialmente com funções burocráticas - mas isso pode ser compensado se a sua linda criatividade e se os seus outros superpoderes forem valorizados. 

 

parte 4: maternidade

    Um lugar que existe muito sofrimento também para mulheres com TDA, é no papel de mãe e na relação com a maternidade. As tarefas exigem uma organização e uma rotina que podem deixar a mulher com TDA desesperada - é claro, deixa qualquer mulher desesperada na verdade, imagina pra alguém que já tem pavor de organização? 

     Além disso, sim, você é ou será, duramente criticada se a casa não estiver "perfeita", se a alimentação das crianças não for quem você que prepara, ou até se você parecer desinteressada pela rotina doméstica. – Tô escrevendo isso aqui e pensando: como uma mulher não portadora de TDA, saibam que eu também tenho um *total* desinteresse pela rotina doméstica, então tenho certeza que esse sentimento não afeta só vocês minhas amigas! Hahahaha. Mas voltando… Pagar contas, organizar as compras, o material escolar, cuidar de horários e da alimentação... nada disso é simples para qualquer mulher, imagina então pra quem tem TDA!

    O principal  acho que é este: a sociedade costuma colocar a mulher como cuidadora principal e como a única responsável pela organização de uma família. A questão é que nós mulheres, também precisamos de uma estrutura, e se você tem TDA, você precisa mais ainda de uma estrutura. E aí o problema é, esperam de você, que você mesma seja a estrutura que você mesma precisa (???) *a famosa receitinha pro desastre*. Não sei se me fiz clara pra explicar aqui, o quão complexo é essa situação familiar se uma mulher com TDA for a única reponsável por tudo!

    Os homens costumam ter um ótimo sistema de apoio: as mulheres. Pena que a maioria de nós, não podem contar com os nossos companheiros da mesma forma. Na maioria das culturas, eles (ainda e infelizmente), não precisam se preocupar com a limpeza, a comida e com outros detalhes do dia a dia. Já nós, mulheres, dificilmente temos esse apoio, pela simples razão de que o mundo espera que nós sejamos o apoio de todas as outras pessoas.

    Mas acho que a partir do momento que você entende como o seu funcionamento é diferente e singular, fica mais fácil de perceber quanto você precisa de um companheiro ou de uma companheira comprensivo(a), empático(a), e que entenda as suas limitações, e que seja sim também, uma boa parte da estrutura da sua vida. 

 

parte 5: aceitando as suas diferenças

    Como você, muitas vezes, não consegue dar conta de tantas exigências de perfeição e organização, é comum que você sofra demais com a a culpa e com ressentimento de si mesma né? 

      Além do seu próprio julgamento - e não duvide o quanto uma mulher pode ser maldosa consigo mesma dentro da própria cabeça – além do seu próprio julgamento interno, ainda existem os dedos que sempre apontam seus defeitos, normalmente de pessoas da sua família e das pessoas mais próximas a você. Os dedos apontados, muitas vezes são de pessoas que você ama e admira muito… E o resultado? O resultado é que faz parte da fórmula perfeita para se desenvolver a depressão e a ansiedade. 

     Por outro lado, a mulher com TDA, pode ser uma esposa, uma mãe, extremamente criativa, divertida e cheia de energia! E os seus filhos sabem (ou vão saber) o quão incrível você é! A mãe com TDA não é uma mãe que brinca só para cumprir tabela: ela brinca de corpo e alma, entra na disputa e pode até sair batendo o pé brava se perder uma partida do videogame.

     O companheiro ou companheira dessa mulher, sabe que nem sempre poderá contar com ela na hora marcada ou com uma organização perfeita, mas essa pessoa também sabe que nunca encontrará a mesma mulher todos os dias. E isso é muito amável. A companhia de uma mulher com TDA é uma companhia espirituosa, sempre disposta para aventuras, é divertida, engraçada e os seus amigos adoram a presença dela. Sem ela, o ambiente perde o brilho.

     Sim, as mudanças súbitas de humor podem gerar brigas intensas entre o casal, mas também proporcionam momentos inesquecíveis de diversão, de parceria e risadas -- ah e o sexo também pode ser incrível! Viver com essa mulher, é como estar em uma montanha-russa amorosa: tem seus altos e baixos, mas nunca falta aquele friozinho na barriga e o coração acelerado.

      Se esse(a) parceiro(a) compreende e ajuda nas suas dificuldades, se essa pessoa souber valorizar as suas qualidades únicas, a mulher com TDA encontrará nessa união a estabilidade de que tanto precisa para ser feliz. 

      Mas por outro lado, se essa pessoa exigir de você uma perfeição de forma controladora, e não se mostrar à disposição para te entender e para te ajudar, aí o caos estará instalado. 

      Minha amiga com TDA, cabe a você entender e trabalhar dentro de si que: você NÃO precisa se obrigar a cumprir um papel que não é o seu – mesmo que o mundo te diga o contrário. 

       Ao se libertar do peso de anos de críticas e tornar-se menos sensível ao julgamento dos outros, você poderá ser capaz de trilhar o seu caminho sem culpa, de desenvolver muito mais a sua personalidade criativa e a sua mente extremamente inteligente. 

       É hora de deixar de lado o esforço de se encaixar em um padrão limitado e desconfortável. Você pode, finalmente, descobrir seus talentos naturais e florescer exatamente como você é. Voa minha amiga!

*** música que dedico para vocês, mulheres com TDA: Clara Bow, Taylor Swift

Por Giovana E. Ribeiro

© 2024 por Isabela Lopes.

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