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TEMAS MÉDICOS

O "objeto favorito" {favorite person} 

26 Mar, 2026

A estréia de um romance épico.

    Embora vínculos intensos façam parte da experiência humana de qualquer pessoa, no Transtorno de Personalidade Borderline (TPB) essa intensidade ganha outra dimensão. Os relacionamentos tornam-se muito mais extremos e desestabilizadores para ambos os lados.

    No começo a paixão é inebriante, a conexão parece inevitável e há uma sensação inegável, de que aquela pessoa é um amor seu de outras vidas. 

                   -“Era pra ser você. E agora tem que ser você para sempre.“

    É comum a gente se sentir assim quando nos apaixonamos. Mas, a questão é: tudo o que nós sentimos de forma regulada, pessoas com o TP Border  sentem com 30 vezes mais intensidade. Para alguém que convive com o Transtorno de Personalidade com Instabilidade Emocional, (ou como a nova CID-11 agora classifica, o Transtorno de Personalidade com o especificador de Padrão Borderline), o mundo é sentido sem filtros. Para alguém que convive com o transtorno, se apaixonar não é só sobre se apaixonar, é sobre essa pessoa se transformar na sua pessoa preferida no mundo. 

  Antes de prosseguirmos com o termo “favorite person", é fundamental fazer uma distinção: embora o termo seja frequentemente associado a um interesse romântico ou afetivo-sexual, no TP border, o conceito de Pessoa Favorita pode aplicar a qualquer tipo de vínculo. Ou seja, essa figura central pode ser uma amizade, um familiar, um(a) parceiro(a) sexual, ou até mesmo alguém que acabou de entrar na sua vida. O que define aqui, essa relação, não é o desejo afetivo-sexual em si, mas sim, a dependência extrema de uma única pessoa para se ter estabilidade, identidade e validação emocional constante. Dito isso, podemos prosseguir. 

     Pessoas que convivem com o transtorno, costumam desenvolver um forte vínculo emocional com uma pessoa específica, alguém em quem se passa a confiar e a admirar muito. Na comunidade de pessoas com TPB, essa pessoa passa a ser conhecida como a “pessoa favorita” (favorite person), um termo que reflete toda a profundidade e a intensidade desse vínculo.

     Nos estágios iniciais do relacionamento, é comum que ambas as partes vejam essa conexão de uma forma positiva. A pessoa favorita se sente lisonjeada, admirada e adorada pela outra — e afinal, quem é que não admira uma atenção no começo da paixão? É uma delícia!

       Mas, se você é alguém que convive com TPB, o que normalmente acontece é que com passar de algumas semanas, a sua pessoa favorita costuma se tornar uma figura de apego inseguro para você. E o que isso significa? Significa que essa pessoa vai passar a dominar os seus pensamentos, passar a ser a sua figura principal de identificação, de segurança e de validação emocional, além dela também ser responsável por desencadear todos os seus medos de abandono e de solidão que vivem rondando pelos seus pensamentos. Não é verdade? Faz sentido pra você

 

      As pesquisas mostram que, na verdade, pode ser difícil para pessoas com o transtorno border formar vínculos realmente próximos com outras pessoas. Então, quando se cria um vínculo importante, você se sente como se finalmente tivesse encontrado alguém em quem pudesse confiar. Inclusive, é comum que no início dessas relações, sejam ignorados quaisquer traços negativos que a sua pessoa favorita aparente ter. 

     Só que, infelizmente, esse nível de intensidade raramente se sustenta por muito tempo O que começa como uma conexão profunda costuma se transformar em uma fonte mútua de estresse. À medida que a convivência avança e as imperfeições naturais da outra pessoa aparecem — afinal, somos todos humanos —, a pessoa com TPB encara esses defeitos como uma quebra de expectativa insuportável. E isso, inevitavelmente, dispara pensamentos negativos e reações emocionais mais graves, porque aquela perfeição inicial era o que mantinha o equilíbrio emocional na relação da pessoa com TPB…

     Então, entender o conceito de pessoa favorita exige que a gente entenda antes que: para o Borderline, essa outra pessoa funciona como um regulador externo das suas próprias emoções. 

     Essa pessoa favorita passa a ser o porto seguro em um mar de instabilidade, e essa conexão costuma ser tão intensa que as fronteiras emocionais entre as duas pessoas se perdem. A identidade do paciente com TBP acaba se fundindo à de sua pessoa favorita, criando assim, uma dependência onde o humor, a autoestima e até o senso de propósito dependem inteiramente de como essa relação caminha naquele momento. 


 

A Raiz do Vazio (um olhar clínico).

      O papel da pessoa favorita vai muito além da companhia; ela serve como o pilar de sustentação psíquica do indivíduo. De acordo com os estudos de Stein & Johnson (2025), essa relação é construída sobre três pilares fundamentais: a busca por segurança, a necessidade de validação constante e a regulação das emoções. Sem essa âncora externa, essa pessoa, o paciente com TPB sente que não possui os recursos necessários para lidar com a intensidade dos próprios sentimentos e da própria vida.

    Essa dinâmica psíquica surge de uma profunda necessidade de proximidade e apoio com outra pessoa. A pessoa favorita, lhe trará amor e pertencimento intenso, lhe trará conforto, lhe dará validação e um senso de propósito, e além disso, essa relação ainda pode inspirar sentimentos de lealdade inabalável, de admiração e de laços emocionais fortes para os dois lados. 

      E embora ao longo do tempo, frequentemente, esse tipo de relação se torne uma verdadeira obsessão, a relação com a pessoa favorita pode ser melhor entendida se a colocarmos como um mecanismo de defesa — um mecanismo de enfrentamento da vida, que as pessoas que convivem com o transtorno border criam dentro de si. 

       Olhando pelo lado positivo, a relação com a pessoa favorita oferece uma sensação real de estabilidade, segurança emocional e até de motivação para regular os próprios sentimentos e a rotina de vida. Quando o vínculo é saudável e os limites são bem estabelecidos, esse tem o poder de fortalecer a intimidade, a empatia e a confiança mútua. 

     Porém, precisamos entender um ponto crucial: embora a maioria desses relacionamentos comece, de fato, de forma saudável, eles podem se transformar rapidamente em uma faca de dois gumes. Isso acontece porque, para quem convive com o Transtorno de Personalidade Borderline, a existência de uma pessoa favorita pode, paradoxalmente, acabar agravando os seus próprios sintomas.

 

      Essa pessoa favorita se torna a sua âncora emocional — alguém a qual você se apega, idealiza e em quem você passa a confiar mais do que em qualquer outra pessoa. Mas, a sua autoestima costuma ficar muito atrelada a esse relacionamento, e por isso, é possível que você alimente esforços frenéticos para manter essa pessoa por perto. 

 

       Essa intensidade pode flutuar ao longo do tempo, dependendo do estresse ou de gatilhos externos da sua vida, claro. Mas sinais de que o relacionamento está se tornando prejudicial incluem: obsessão, comportamentos intrusivos, monitoramento constante ou dependência da pessoa favorita para criar uma intimidade ou para regular o seu próprio humor. 

       Para entender a intensidade que a Pessoa Favorita tem na vida de uma pessoa com TBD, precisamos olhar primeiramente pelo retrovisor, lá para os primeiros anos da sua vida e da sua infância. A escolha de uma única pessoa como favorita não é um capricho ou uma preferência sua que acontece casualmente; é uma tentativa inconsciente e desesperada  do seu eu de encontrar uma cura para algum tipo de suporte que te faltou lá atrás.

 

O que é um Apego Inseguro?

      O apego é o vínculo que formamos e criamos a partir dos nossos cuidadores primários. É a nossa primeira lição sobre o mundo: "Se eu chorar, alguém virá? Quem virá me acolher? E se eu sentir fome, quem irá me alimentar? Eu estou seguro(a)?As minhas necessidades estão sendo atendidas por esse(a) cuidador(a)?"

 Quando esse cuidador primário é inconsistente, negligente ou emocionalmente ausente, a criança desenvolve o que é conhecido como apego inseguro.  E, existem duas faces principais desse mecanismo de apego que podemos associar com a dinâmica da pessoa preferida:

 

  1. O apego ambivalente ou ansioso: é quando criança nunca sabe de verdade se será amada ou abandonada. Devido a essa inconstância do cuidado, então essa criança se torna hipervigilante – ela acredita que ela precisa monitorar a outra pessoa o tempo todo para garantir que ele ou ela ainda estará lá.
     

  2. O apego desorganizado: acontece quando o cuidador é, ao mesmo tempo, uma fonte de medo e também a única fonte de proteção. Essa ambiguidade gera um caos emocional na criança, que se reflete (e muito) durante a vida adulta.


       Assim, as relações de pessoa favorita, acabam herdando esse tipo de modelo de apego inseguro. Para quem convive com TPB, a pessoa favorita não será apenas um(a) amigo(a) ou um(a) parceiro(a); ela é também, uma figura desse apego reconstruída no presente. O paciente com border, tende a depositar nessa pessoa, missão impossível de reparar as falhas dos seus cuidadores da infância…. É por isso que o medo do abandono e da solidão é tão visceral nesse transtorno: se a pessoa favorita se afasta, não é só um término ou um vácuo social; para o cérebro emocional do borderline, essa é uma reedição do trauma original.

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A dinâmica da montanha-russa.

      O relacionamento também pode ser muito difícil para a pessoa que está na posição de favorita, pois ela será a responsável por absorver toda a intensidade e instabilidade que acompanham o apego do TP border. Este tipo de dinâmica entre duas pessoas costuma evoluir rapidamente para um padrão de codependência da relação.

       E é aí, que o relacionamento tende a cair em um ciclo doloroso de idealização e desvalorização constante. Nesse ciclo, acontece o seguinte: você coloca alguém em um pedestal e, no momento seguinte, depois de algumas horas, a destrói. 

    E esse ciclo, com certeza, leva à exaustão emocional tanto sua quanto da sua pessoa, resultando em fadiga, ansiedade, ressentimento, para ambos os lados. 

 

       Quando você é a pessoa favorita, no início, você receberá elogios e admiração. No entanto, as suas ações também irão ser alvos de intensa desaprovação depois de algum tempo — isso porque altas expectativas são um aspecto vital da dinâmica de relação com o TP border. E se você, não corresponder a tais expectativas, isso levará vocês a terem conflitos intensos. 

        Se, por acaso você é a pessoa favorita de alguma pessoa que conviva com TPB, ele(a) pode apresentar alguns dos seguintes comportamentos: 

  • Pedidos constantes por reafirmação. 

  • Querer a sua atenção o tempo todo. 

  • Entrar em pânico ou reagir com agressividade se você passar ou até mesmo pedir para passar algum tempo longe dele(a).

  • Te eleger como a fonte principal de orientação e apoio dela(e).

  • Te fazer declarações regulares de amor e de adoração. 

  • Expressar ciúmes pouco racionalizados sobre outros relacionamentos próximos a você. 

         Se você é a pessoa favorita, você acaba se tornando o regulador emocional do outro. É como se você passasse a ser como oxigênio para outra pessoa – e se você se afasta, esse outro sente que sufoca.

          Essa sobrecarga emocional se manifesta normalmente depois de comportamentos que literalmente testam os limites da relação. Alguns exemplos desse tipo de comportamento podem ser:  perguntas constantes de reafirmação (você ainda gosta de mim? Você vai me deixar?), reações de pânico ou ciúme (um medo desproporcional de que você tenha outros interesses ou outras amizades), e um estado de vigilância constante (passa a acontecer um monitoramento intenso, 24 horas por dia). E o resultado, se não houver o cuidado adequado, é o esgotamento. Com pouco tempo de relação, a pessoa favorita começa a "pisar em ovos", por sentir medo de que qualquer ação simples sua desencadeie uma crise catastrófica no relacionamento.

 

      E quando você tem uma pessoa favorita… Então, provavelmente esse alguém é alguém  com quem você tem uma conexão próxima. Mas é improvável que esse relacionamento seja saudável, estável ou seguro para você. 

            Pessoas com TPB frequentemente se envolvem em um processo de cisão com aqueles com que se envolvem intensamente, com isso passam a vê-las como totalmente boas ou como totalmente más. No começo da relação, você provavelmente verá a sua pessoa favorita como perfeita. Só que, sempre que surgir um conflito ou se ela tentar impor alguma distância ou limite, você tende a interpretar rapidamente essa ação como uma traição ou ameaça de abandono. 

       Assim, sintomas comuns quando se tem uma pessoa favorita, incluem:

  • Ter emoções e sentimentos intensos por ele ou ela, que oscilam drasticamente entre positivos e negativos.

  • Mudar a si mesmo(a), ou de opinião, para agradar essa pessoa.

  • Sentir medo constante de ser abandonado(a) por ele(a).

  • Desejar a atenção e a aprovação dessa pessoa o tempo todo.

  • Projetar as suas fantasias no relacionamento de vocês, e fazer isso com pouca ponderação. 

  • Encontrar maneiras de testar a lealdade dessa pessoa, o tempo todo. 

 

         Para quem vive o transtorno, a Pessoa Favorita não é um luxo, ou um drama, é uma necessidade vital. Por isso, cada mudança no tom de voz, um "visto" não respondido no whatsapp, ou até mesmo um olhar mais distante, será analisado sob um microscópio. Para o Borderline, qualquer mínimo sinal pode funcionar como um sinal de que o abandono pode estar próximo – e é aqui que o anjo vira vilão

         E, quando a pessoa favorita impõe um limite ou não atende a uma expectativa, o sistema emocional da pessoa com TPB entra em curto-circuito. Ele(a) não consegue integrar que alguém pode ser bom e falhar ao mesmo tempo. Por isso, essa pessoa é "cortada" emocionalmente para que a dor da decepção passe a ser suportável.


 

O ciclo de rompimentos catastróficos.

         Como já dito, o relacionamento com a Pessoa Favorita nasce de uma busca desesperada por estabilidade, mas carrega em si um paradoxo cruel: a mesma intensidade que cria o vínculo é a que o destrói. É aqui que a "âncora" emocional se transforma em um peso insustentável para ambas as partes.

           Quando o(a) paciente amarra a sua autoestima e sua identidade à aprovação do outro, ele(a) entra em um estado de hipervigilância — assim, qualquer sinal de cansaço ou necessidade de espaço por parte da Pessoa Favorita é entendido como uma sentença de morte do relacionamento. Isso dispara os chamados "esforços frenéticos"  para evitar o abandono, são feitas cobranças, testes de lealdade, crises de choro ou ciúme extremo. Ironicamente, esse comportamento — que visa e tenta manter a outra pessoa por perto — é exatamente o que gera a exaustão dessa mesma pessoa, e a afasta para longe.

        E no final das contas, esse padrão não é um evento isolado, mas um ciclo repetitivo que muitas vezes acompanha o indivíduo ao longo de toda a vida. Fase 1: a idealização – alguém novo passa a ser eleito como  a sua pessoa salvadora. Fase 2: as expectativas: as suas tornam-se pesadas demais para o outro suportar, pois ninguém é perfeito e relacionamentos humanos são assim. Fase 3: a frustração. Você se sente completamente magoado(a), decepcionado(a) com a outra pessoa por ela não ser quem você achou que ela fosse. Fase 4: o afastamento. Você sente raiva e agride essa pessoa emocionalmente. A pessoa favorita, por sobrevivência, começa a recuar. Fase final: o rompimento catastrófico. Você interpreta o recuo como traição total, e num mecanismo de defesa pode “descartar” a pessoa primeiro (cisão) ou implodir emocionalmente (ou os dois juntos). 




 

Caminhos de Saída.

       Se você se identificou com esse texto — seja como quem elege a "pessoa favorita" ou como quem ocupa esse posto — saiba que a sua intensidade não precisa, obrigatoriamente, levar ao abismo. Existe um caminho terciário entre a fusão absoluta e o abandono catastrófico, e esse caminho passa por um conceito que pode parecer contraintuitivo de início para você: criar os seus limites podem te libertar.

      Muitas vezes, quem tem TPB enxerga o "não" ou o espaço do outro como uma rejeição extremamente dolorosa. Mas, na verdade, o limite é o que garante a manutenção da vida útil da relação a dois. É o limite que impede que o oxigênio acabe no ar de vocês e que a sua pessoa favorita se esgote. 

        Aprender a respeitar o espaço do outro e o seu próprio espaço, não é sinal de desamor. Ter limites entre vocês é, na verdade, o maior ato de preservação do vínculo que você pode exercer.

        Nesse cenário, a psicoterapia surge como a ferramenta de ouro. Ela funciona como uma ponte para que o paciente aprenda a se autorregular, desenvolvendo a musculatura emocional necessária para lidar com o vazio sem precisar sugar toda a energia do outro. O objetivo não é deixar de amar intensamente, mas aprender a não depender desse amor para validar a própria existência.

     No fim das contas, a necessidade de conexão é profundamente humana; todos queremos um porto seguro. No Transtorno Borderline, o desafio não é o desejo de estar perto, mas o medo de estar longe. O equilíbrio é o grande aprendizado.

Com paciência, consciência e o suporte técnico adequado, esses relacionamentos que antes eram marcados por tempestades podem se transformar em conexões resilientes, onde a admiração permanece, mas a dependência dá lugar à parceria. Afinal, amar alguém por inteiro é maravilhoso, mas amar a si mesmo a ponto de não se perder no outro é o verdadeiro começo da cura.



 

                   Música que me inspira a refletir sobre esse assunto: 

                                                                 Don't blame me – Taylor Swift

Por Giovana E. Ribeiro

© 2024 por Isabela Lopes.

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